Em visita ao Brasil pela décima vez, a escritora e ativista Angela Davis, uma das principais referências do feminismo, afirmou que a supremacia branca não está em ascensão nos Estados Unidos. Para ela, os grupos extremistas apenas “saíram do armário”. Davis é um dos nomes mais esperados da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde participa de um evento no próximo sábado (25).
A declaração foi dada em entrevista no Rio de Janeiro. Davis rebateu a ideia de que o retorno de Donald Trump à presidência represente um apoio majoritário ao conservadorismo. Ela destacou que a vitória do republicano se deve, em grande parte, à abstenção eleitoral. “A razão pela qual ele voltou foi porque muitas pessoas deixaram de votar”, disse.
Questionada sobre a influência da supremacia branca, Davis lembrou que o ataque ao Congresso em 2021 foi obra de uma minoria. “Dizer que o presidente representa a grande maioria das pessoas no país é falso”, afirmou. Segundo ela, a extrema-direita sempre existiu, mas agora se sente à vontade para se manifestar abertamente.
Abolição das prisões e justiça social
Defensora do fim do sistema carcerário, Davis argumentou que a abolição das prisões não minimiza o sofrimento das vítimas. Ela defende a chamada justiça transformativa, que busca entender as causas sociais que levam ao crime. “Nosso papel é reivindicar uma sociedade que não precise dessas estruturas violentas”, explicou.
A ativista também criticou o uso de tecnologias como reconhecimento facial e inteligência artificial na segurança pública. Para ela, essas ferramentas têm base no racismo estrutural e servem para manter as desigualdades sociais. Ela citou o exemplo de presos que só descobrem o prazer da leitura e da arte dentro da prisão, quando já é tarde.
Sobre o movimento “Defund the Police”, Davis reconheceu que ele perdeu força, mas afirmou que as bases para uma resistência continuam ativas. Ela citou protestos contra a imigração em estados como Minnesota e Chicago como sinais de que o desejo por uma democracia real não foi destruído pelo governo Trump.
Causa palestina e divisão política
Davis classificou como uma “tática conservadora” a tentativa de equiparar a solidariedade ao povo palestino com antissemitismo. Ela disse que a maioria da população americana hoje se inclina mais pela causa palestina, algo que considera lamentável por ter sido necessário um “genocídio em Gaza” para que essa sensibilidade política surgisse.
A ativista também comentou as recentes decisões da Suprema Corte dos EUA, que restringiu ações afirmativas e revogou proteções ao aborto. Para ela, o tribunal não reflete a opinião da maioria. “Nenhuma grande virada política jamais veio de um presidente”, afirmou, defendendo que as mudanças ocorrem quando as pessoas se organizam e vão às ruas.
Davis criticou a falta de organização do movimento progressista atual. Ela disse que as possibilidades existem, mas faltam formas eficientes de dar expressão política a esses sentimentos. A ativista atribuiu parte do problema à concentração de riqueza, que nunca foi tão alta na história da humanidade.
