Há quase uma década, a TV Globo afirmava alcançar 100 milhões de brasileiros todos os dias. Hoje, em plena Copa do Mundo, comemora ter reunido a exata metade desse número: 50 milhões. A diferença revela o atual momento da mídia no Brasil e no mundo.
Lançada em outubro de 2017, a campanha 100 Milhões de Uns destacava que a TV Globo alcançava, em média, 98 milhões de espectadores ao longo de 24 horas. A empresa ainda destacava uma média de 14 milhões acessando diariamente suas propriedades digitais, como G1, Gshow e Globoplay. A iniciativa era uma demonstração de força do grupo em um momento em que a atenção do público começava a se fragmentar.
Nove anos depois, o cenário mudou. Na Copa do Mundo, a mesma Globo diz ter alcançado 46,4 milhões de pessoas com a partida de abertura, entre México e África do Sul. O número reúne os espectadores do canal aberto, do Sportv e do Ge TV. Já a estreia do Brasil no torneio, o empate contra Marrocos, alcançou 49,9 milhões, segundo a empresa, o que representa cerca de 23% da população do país.
Considerando a aferição do Ibope, a queda segue o mesmo padrão. Na estreia brasileira na Copa de 2018, a emissora marcou 55,2 pontos no Painel Nacional de Televisão (PNT). Em 2022, com a CazéTV operando, a audiência foi de 51 pontos, com 77% dos televisores ligados sintonizados na Globo. Em 2026, foram registrados 33 pontos, com 55% de share.
Há uma ressalva importante: o alcance diário divulgado em 2017 era o acumulado ao longo de 24 horas. Já um jogo é um evento de poucas horas. Por outro lado, se nem a Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo consegue chegar perto dos 100 milhões, isso ajuda a dimensionar o quanto o Brasil de 2026 é mais fragmentado do que o de 2017.
A queda de alcance é reflexo de um mercado audiovisual diferente. Em 2018, os brasileiros podiam acompanhar a Copa apenas por Globo e, na TV fechada, Sportv e Fox Sports. Na Copa da Rússia, em 2022, o grupo carioca abriu mão da exclusividade nos direitos de transmissão na internet, o que deu espaço para a CazéTV no YouTube. Para a Copa do Mundo de 2026, a CazéTV tem todo o torneio, com a Globo sublicenciando cerca de metade dos jogos.
Há ainda a competição interna: o SBT, em parceria com a N Sports, também garantiu partidas da Copa e trouxe Galvão Bueno para narrar os jogos da Seleção. O canal aberto afirma que conquistou 11,12 pontos de média no Ibope em São Paulo no empate contra Marrocos, e uma audiência nacional de 22,5 milhões de pessoas.
O smartphone deixou de ser a segunda tela para se tornar o centro das atenções. O próprio Grupo Globo lançou o GloboPop em abril. A métrica mais disputada hoje pela mídia já não é apenas o alcance, mas o tempo de atenção. Considerando tudo isso, a conquista da Globo com seus 50 milhões de “uns” na Copa do Mundo ainda é digna de comemoração. Os outros 50 milhões não desapareceram, apenas mudaram de tela.
